quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Texto: Um homem tem 1, 54 m de altura / Marcos de Vasconcellos

UM HOMEM TEM 1,54m DE ALTURA
                                  Marcos de Vasconcellos
Um homem, imbuído de alto espírito de solidariedade animal, deu liberdade a um 
passarinho, o qual (segundo se apurou posteriormente) era um gênio encantado que, por 
elementar dever de gratidão entre os gênios, concedeu-lhe três pedidos. O primeiro seria 
de atendimento imediato e os dois restantes a vencer nos prazos de 30 e 60 dias 
garantidos por duas promissórias. 
 O homem, que tinha 1,54m de altura, muito alegre e alvoroçado, pediu para 
crescer. 
 O gênio atendeu o pedido, conforme fora combinado, e partiu. E o homem de 
1,54m ficou 1,60m e logo com 1,76m e dormiu com 1,80m, radiante como nunca 
estivera antes pois sempre fora arredio, esmagado por complexos de baixa estatura. 
Quando acordou tinha 2,30m. Almoçou com 2,50m, com muito apetite, e jantou com  
3 metros Em breve cresceu até o segundo andar e logo até o quinto. Depois passou os 
telhados. Trinta dias depois tinha 53 metros, segundo topógrafo consultado, e estava 
muito apreensivo apesar de livre dos seus complexos. Venceu, então, a primeira 
promissória e o gênio voltou rigorosamente no prazo, como convém aos gênios. 
 – Quero diminuir. Quero diminuir. Pediu o gigante contrafeito por estar de tanga e 
com muito frio. 
 Quinze dias depois o homem chegara novamente, sentindo até um certo alívio, a 
sua estatura de 1,54m. Mas não parou aí. Logo depois tinha 1 metro e logo 50cm. 
 Os complexos voltaram, então, mais agravados. Com 30cm veio o desespero que 
aumentou quando estava com 15cm, virou pânico no 55º dia quando acordou com 8cm. 
 A família do homem – gigantes de 1,54m – cercou-o  de todas as garantias para 
que o seu desaparecimento ótico gradativo não o condenasse a um desaparecimento 
físico, pisado desastradamente por um inseto caseiro ou mordido por um micróbio. 
Quando o gênio chegou, no dia marcado, como sempre, aliás, encontrou o homem de 
1mm muito desanimado, protegido por um campânula de vidro, dessas de proteger doce. 
– Quero que você entre novamente na gaiola, berrou  o homem com voz débil. 
Vamos recomeçar tudo sem muita malícia...

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