UM HOMEM TEM 1,54m DE ALTURA
Marcos de Vasconcellos
Um homem, imbuído de alto espírito de solidariedade animal, deu liberdade a um
passarinho, o qual (segundo se apurou posteriormente) era um gênio encantado que, por
elementar dever de gratidão entre os gênios, concedeu-lhe três pedidos. O primeiro seria
de atendimento imediato e os dois restantes a vencer nos prazos de 30 e 60 dias
garantidos por duas promissórias.
O homem, que tinha 1,54m de altura, muito alegre e alvoroçado, pediu para
crescer.
O gênio atendeu o pedido, conforme fora combinado, e partiu. E o homem de
1,54m ficou 1,60m e logo com 1,76m e dormiu com 1,80m, radiante como nunca
estivera antes pois sempre fora arredio, esmagado por complexos de baixa estatura.
Quando acordou tinha 2,30m. Almoçou com 2,50m, com muito apetite, e jantou com
3 metros Em breve cresceu até o segundo andar e logo até o quinto. Depois passou os
telhados. Trinta dias depois tinha 53 metros, segundo topógrafo consultado, e estava
muito apreensivo apesar de livre dos seus complexos. Venceu, então, a primeira
promissória e o gênio voltou rigorosamente no prazo, como convém aos gênios.
– Quero diminuir. Quero diminuir. Pediu o gigante contrafeito por estar de tanga e
com muito frio.
Quinze dias depois o homem chegara novamente, sentindo até um certo alívio, a
sua estatura de 1,54m. Mas não parou aí. Logo depois tinha 1 metro e logo 50cm.
Os complexos voltaram, então, mais agravados. Com 30cm veio o desespero que
aumentou quando estava com 15cm, virou pânico no 55º dia quando acordou com 8cm.
A família do homem – gigantes de 1,54m – cercou-o de todas as garantias para
que o seu desaparecimento ótico gradativo não o condenasse a um desaparecimento
físico, pisado desastradamente por um inseto caseiro ou mordido por um micróbio.
Quando o gênio chegou, no dia marcado, como sempre, aliás, encontrou o homem de
1mm muito desanimado, protegido por um campânula de vidro, dessas de proteger doce.
– Quero que você entre novamente na gaiola, berrou o homem com voz débil.
Vamos recomeçar tudo sem muita malícia...